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Falar sobre música é besteira, fazer é loucura

A frase acima deslocada de seu contexto não passa de uma mera blague de Walter Smetak, suíço filho de tchecos que ganhou sua nacionalidade baiana graças ao convite de H.J.Koellreutter para lecionar na Escola de Música da Universidade Federal da Bahia. Você pode não ter ouvido diretamente sua música, mas o conhece através de Tom Zé, Marco Antonio Guimarães e Uakti, Wilson Sukorski e Fernando Sardo. Você também pode ter lido comentários elogiosos a seu respeito por intermédio de Gil e Caetano, ou mesmo ouvido este último cantar seu nome em uma velha canção dos anos 70 - ê ê ê ê ê... smetak... Mas desista de procurar algo dele em suas obras, seu repertório é muito sofisticado para as canções de Caetano e Gil. Violoncelista, compositor, estudioso da teosofia, inventor de instrumentos, Smetak criou ainda as plásticas sonoras - esculturas/objetos/assemblages de elementos naturais como a cabaça - sua mais intrigante obra. Eu confesso desconhecer o contexto da frase acima, mas é sempre a ela que se referem para apontar as idiossincrasias de um autor tão singular. Frases soltas e enigmáticas servem também para criar auras místicas em torno daquilo que não fazemos a mínima idéia do que se trata ou reforçar nosso suposto eruditismo e sapiência a quem nos ouve. Falar sobre música pode ser besteira para quem a faz, já que o grau de envolvimento em sua criação consome tanta energia que o silêncio é um descanso mental mais do que merecido. Falar de seu próprio trabalho também é um ato difícil, tratando-se de música. Há uma lenda de um determinado compositor que, após tocar sua música ao piano, ao ser interpelado por um dos ouvintes a respeito do que queria dizer com aquela obra, voltou ao instrumento e a executou novamente. Mesmo sendo besteira, falar sobre música é o motivo da existência desse blog, com todo o risco do ridículo e da redundância, mas pelo mero exercício de organizar idéias. Aqui então você não encontrará textos sobre grandes obras ou questões, mas somente quando a música for negativa, banal, precária, surda, visível, risível, ordinária, inverossímil, cotidiana, ativa, volátil, frívola, inaudível, solúvel, desarticulada, insustentável, radical, fragmentada, desarticulada... (complete com o que você quiser).



Escrito por Datilografado por sérgio pinto às 23h32
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