Pierre Henry & Festival Música Nova
O edifício da música concreta contou com dois Pedros em sua fundação (Pierre Schaeffer e Pierre Henry) e dependendo do ângulo que se analise, os papéis de Deus e Diabo se alternam. Schaeffer foi técnico de estúdio na Rádio e Televisão Francesa e dissecou a estrutura dos sons e de nossa escuta, escrevendo tratados fundamentais para a música do século XX. Henry, treinado em violino no Conservatório de Paris, escreveu avalassadoramente, de missas a música pop, desenvolvendo parcerias com artistas tão díspares como Bejart, Alwin Nikolais, Merce Cunningham, o próprio Schaeffer e Michel Colombine. Se vivo fosse, Schaeffer estaria em algum posto de diretor de centro de pesquisa ou num alto cargo na universidade francesa. Henry, coerente com seu tempo, trabalha em seu estúdio particular - não é como o seu ou meu estúdio, mas é dele, de qualquer forma - e estabeleceu residência no prestigiado ZKM. Quando veio ao Brasil, nos anos 80, Schaeffer - azedo e mau humorado - desaprovou sua produção e desencorajou quem quisesse fazer música eletroacústica, alçando o violino às estrelas. Henry não pode vir ao Brasil, sua idade avançada e problemas de saúde o impedem de fazer viagens longas de avião, mas enviou seu filho, David Henry, e seu assistente, Etienne Bultingaire. Enquanto o artista búlgaro Christo embala monumentos arquitetônicos, Henry recheou o Auditório do Ibirapuera, nos dias 5 e 6 de setembro, com cerca de uma centena de caixas acústicas, apontadas para todas as direções da sala, para a difusão de sua música, fazendo qualquer experiência de espacialização sonora feita por aqui parecer um 3-em-1 Toshiba. As obras apresentadas guardavam certa simplicidade, sua composição beirava o descritivo, mas sua projeção era palpável, as camadas sonoras nos massageavam o corpo, era quase possível ver os sons dançando na sala, se delocando de um ponto a outro. Virou clichê qualquer DJ ou produtor de dance music eletrônica se dizer influenciado por Stockhausen, quando na verdade é Henry que está mais próximo deste universo, mais do que qualquer outro pioneiro eletrônico. Talvez seja justamente essa aproximação dos músicos pop à música de Henry que fez com que certo establishment musical contemporâneo desta aldeia tapuia não tenha prestigiado sua apresentação e não ter atribuído a ele o nome maior desta edição do Festival Música Nova, responsável por sua vinda, mas sim ao Arditti Quartet, mais por interpretar luminares desta aldeia do que por seus méritos mais que reconhecidos. A França cunhou uma bela expressão para designar certa produção eletroacústica: cinema para os ouvidos. Pois então se compararmos a obra e trajetória dos Pedros concretos com a dos pioneiros do cinema, podemos dizer que Schaeffer é o Lumiere da música concreta, enquanto Henry, nosso Méliès sonoro, nos embala com sua magia.
Escrito por sérgio pinto às 01h32
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